pequena nota sobre a glorificação e hierarquização machista da violência no anarquismo

tradução de comentário retirado da revista Homnicidium Ediciones Nihilistas y Antipatriarcales, mais comentários próprios.

Uma explosão material pode não implicar nenhuma explosão de Si mesme

Este número foi aberto com a seguinte frase da CCF1“A aposta é não deixar que esta versão alienada e patriarcal da violência anarquista se estabeleça em nosso interior e, a cada dia dar nossas próprias batalhas pessoais para não nos tornar-nos catives das imitações pálidas do Poder”.

“O materialismo manifesto que se aprecia no texto primeiro, é muito similar em tal aspecto a muitas das reivindicações da FAI/FRI2 e a outros textos como o recente “As malignas gargalhadas de uns espíritos muito livres ou Não nos defendas compadre que a Anarquia sabe defender-se sozinha!”, que não contém mais que “críticas” repetidas até sua vacuidade voltados à impossibilidade de avançar aprofundando que concluem sempre na (exclusiva) exortação à ação netamente material de incendiar, explodir, matar, etc.

Com isso, e me remetendo à frase que escolhi para abrir este número, quero – embora de maneira nada exaustiva desta vez – evidenciar em tal materialismo uma sobrevaloração da violência, que identifico como valor patriarcal.

Dita sobrevaloração ocorre dentro do paradigma masculino bélico no qual a violência (e a guerra) é uma gesta heróica, glorificada e sacralizada que desvalorizando, anula os campos de experimentação criativos, emocionais, intelectuais, energéticos, e outros.

É tão universal a aceitação desta violência, que inclusive es mais “revolucionaries” e “nihilistas” assumem o uso da violência em uma lógica que não se posiciona FORA das realidades a se atacar, senão dentro destas mesmas e seus sistemas dicotômicos de referência e identificação:

Unes têm razões altruístas ou a propriedade da “verdade” para fazer uso da violência e, a violência do “inimigo” satanizado e vilanizado porta a pior ameaça para a “liberdade”. 3

Unes são os boms e outres os maus.

“Quem não está comigo está contra mim”. (…)

Esboçando brevemente algumas características desta sobrevaloração materialista, observo também a consequente supressão de expressões que não sejam as de vingança, ódio, desprezo ou outras emoções “duras” ou “masculinas” que ademais, funcionam como uma corda que ata ae Individue a um mundo que, se supôe, lhe resulta alheio.

Adverto aqui também a jaula de expressividade que em outro momento falei.

O modelo bélico enraizou tão profundamente na mente das pessoas que inclusive as relações de Afinidade sucumbiram a estas lógicas. Basta com pensar no uso do termo “guerrilha urbana” para identificar-se como grupo ou individualmente, em prol do puro interesse pessoal ou da experimentação da Afinidade como caudal de paixões, potenciamento, calor, intro-destruição, e mais.. – devenindo ocasionalmente explosiva. 4

Não há possível Afirmação como Individue quando se permanece dentro dos sistemas de referência valorizados neste mundo.” 5


1 Conspiração Células de Fogo, grupe de guerrilha urbana informal que atua no território grego.

2 Federação Anarquista Informal, criada na Itália, um grupo informal insurrecional.

3 Me incomoda MUITO essa linguagem maniqueísta no anarquismo, me parece inclusive infantil. É tanta construção com base numa antítese em relação a um outro demonizado, tanta excisão de aspectos do próprio eu que se desprezam, que os anarquistas acabam se tornando a mais pura expressão do autoritarismo e todas coisas detestáveis do sistema que tanto afirmam opôr-se e definir-se em negatividade. (Nota da Tradutora)

4 Esse masculinismo que parece com a medição e exibição de falos entre a camaradagem masculina, inclusive é um dos grandes entraves no estabelecimento de uma cultura de segurança, não sendo muitos os que colocam em risco pessoas por gabar-se de atos criminais e ilegais. Acabam também lamentávelmente não pondo em risco somente a eles mesmos, mas também às idéias (N.T.).

5 Numa sociedade patriarcal, onde o valor é o homem, não é a toa que aquilo que se identifica com a masculinidade seja mais valorado, como é o caso da ação violenta em contraposição a outras ações anti-sistêmicas, com tanto ou mais potencial de destruição que uma ação direta física. Afinal pra acabar com esse mundo se levará mais que bombas, e o ato de construir (novas relações, novos valores, etc), que é talvez mais trabalhoso, lento e exigente, é também um ato de destruição mais radical.

Também acho que a identificação com masculino, na velha análise feminista, é identificar-se com o Poder, no caso o poder masculino, é recuperar um ‘falo’ que a mulher não possuiria segundo o discurso patriarcal. Quando temos internalizado o colonizador e seus valores, querer se parecer com ele também passa por querer se tornar mais ‘masculina’, e portanto, virulenta, diferenciar-se das demais mulheres e não querer ser uma, querer identificar-se com a potência, com a agressão, com a masculinidade como mecanismo de falsa solução a baixa-auto-estima de gênero. No sistema simbólico patriarcal, as mulheres estão relacionadas com o pacifismo. Mulheres pedem a paz, homens querem fazer mais guerras. Mulheres participam em revoluções de garotos onde eles trocam de lugar entre si. Ainda creio na necessidade de redefinir violência em contextos de auto-defesa e ataque ao Capital e ao Patriarcado, em contextos insurrecionais e de protestos e repressão estatal, mas também de uma recuperação não-reacionária de valores não-violentos para opor-se a esse sistema de valores masculinos que só dá giros por si mesmo sem mudar substancialmente (N.T.).

***

O tema da fúria é super importante no feminismo radical.
Audre fala sobre os ‘usos da raiva’.
E não descartamos a ação violenta e tampouco a Auto-defesa. Somos feministas radicais, não queremos e muitas vezes nem podemos terceirizar nossas necessidades de defender-mos e de ‘justiça’.
Mas é distinto do que se quer criticar aqui, pois dentro do anarquismo masculinista somente é válida a ação violenta e inclusive se criam ícones em cima de ações (veneração de presos políticos, pessoas que fizeram ações ilegais) e mártires da causa (Mauricio Morales por exemplo, anarquista chileno que morreu ao transportar artefato explosivo). Frente a isso outros trabalhos ativistas são depreciados, até mesmo reprimidos, chamados de ‘reformismo’ pelo simples fato de que não é tão visível e heróico, glorioso quanto explodir um banco.
Dizem que aquel*s que resgatan animais ou os castram, os ‘proteccionistas’, são assistencialistas, até mesmo de cristianos nos acusam, mas não oferecem nada mais que mais negligência aos mesmos, e ainda te criticarão por não ser radical o suficiente, dirão que apenas está perpetuando a escravização de animais ao abrigar um e retirá-lo da situação de rua e risco em que se encontra. Por meio de retórica primitivista (uma teoria inclusive, extremamente anti-feminista, advogando idéias essencialistas e uma construção evolucionista, racista, romanticista sobre a natureza ou sobre uma tal ‘primitividade’) advogam atitudes abandônicas em relação a animais, dizendo que voltarão a ser selvagens caso você não intervenha proporcionando abrigo, afeto e condições de vida. Como se isso pudesse ocorrer num contexto de cidades!
Como também se não soubessemos que é uma merda o mero fato de que hajam animais domesticados, e que essa é a mesma raíz do problema,  somos os que melhor sabem isso senão não os castraríamos.

Isso pra não comentar muitas outras coisas. O Feminismo para esses anarquistas é também, arrogantemente dizem, uma causa reformista. (O anarquismo não é né? Acaso não passa de uma mera perpetuação e regurjitação de ideologia Masculina e instituições masculinas. O separatismo é mais radical que essa merda).

Sobre a romantização da morte. Ainda digo que é muito diferente o morrer para mulheres, lésbicas, travestis, pessoas de cor, indígenas.
A morte numa ação, o ‘morrer lutando’ deles, tem haver com a economia de subjetivação masculina. Os homens são construídos para serem guerreiros, ou melhor, agentes do Estado, policiais encarnados na corporalidade masculina, é a polícia mais primitiva. Ser homem é ser policial de uma forma muito radical, é a subjetivação e preparação para serem sujeites que garantem o Estado, a Nação, por meio da violência, são criados e são um projeto de subjetividade tão caro ao sistema porque é o mesmo que o mantém, são o Estado entre nós, e com ele se identificam em seu âmago, mesmo os Anarquistas. Porque matarão as suas companheiras se puderem, porque se matam entre eles provando quem tem a maior pica, porque são um braço do sistema, treinam seu corpo e se vigorexixam por uma demanda internalizada do Estado e do Sistema de que vajam para o fronte da batalha defender a nação, consomem pornografia para aprender a estuprar porque é outra arma de guerra e de conquista, dominação.

Para eles pode ser uma ‘escolha’ morrer, e a dignidade pode estar definida somente como sendo o não morrer humilhado, mas morrer no ‘combate’, ‘honrosamente’.

Para nós mulheres, lésbicas, travestis, pessoas de cor, originárias… que somos dizimadas diariamente, nossa batalha é constante. É sobreviver, e estarmos vivas é um signo de vitória. Somos alvo de genocídio, estamos sendo assassinades, jovens negres são assassinados nas periferias por policiais e são assassinados pelas drogas e trafico feitos para dizimar população negra, travestis são mortas por policias e subjetividades masculinas por sua disconformidade de gênero, lésbicas são assassinadas e alvo de estupro corretivo, sendo desaparecidas também simbolicamente dos registros para que impere a heterossexualidade compulsória, que apareça como única verdade e possibilidade e coagindo mulheres dentro do contrato heterossexual que mantém a sociedade. Para que sejam violadas nesse contrato que naturaliza o fato de que são violadas, que naturaliza o intercurso sexual que não passa de uma invasão corpórea como guerra biológica contra mulheres. Se cria a ginecologia para conter os efeitos da heterossexualidade na morte de mulheres que podem ser reprodutoras úteis ao Patriarcado. Mulheres são mortas por feminicídio, por aborto inseguro, desaparecidas nas redes de prostituição, o sistema da camaradagem e construção da identidade masculina mais antigo (e não a profissão mais antiga, senão que a opressão mais antiga).

Mulheres e lésbicas e travestis e pessoas negras, originárias, querem viver. ISSO É RADICAL, É UM ATO FUNDAMENTALMENTE RADICAL, DECIDIR E ESCOLHER PELA VIDA.
Construir comunicação, valores, ferramentas, espaço, educação não patriarcal leva tempo e trabalho por outro lado. O que é portanto, feminista, até mesmo num senso epistemológico que é oposto a este masculinista e mais visível e legitimado, é relegado à esfera do ‘doméstico’, micropolitico. Afinal, o trabalho doméstico e feminino é invisível, portanto o trabalho ativista é invisível, e é mais minucioso, mais micro e mais difícil, é também o trabalho mais pesado e não reconhecido. Ele não é tão visível como explodir um banco. Ele é menos personificado e mais anônimo, ele envolve mais gente, ele é menos individual e mais comunitário.

Assim que não vejo tanta diferença entre socialistas, que falam que somente o que é válido é a mudança ‘estrutural’ ou uma ‘revolução social’, e os anarquistas insurreccionais que falam que o mais prioritário e verdadeiro é socar um policial…

Algumas anarcafeministas fizeram piadas com os anarquistas estes e como o fetichismo da violência chega a ser patético.

Levo o que ouvi de uma lesbofeminista, comentando sobre as brigas e disputas entre feministas sobre “quem é mais radical que quem” (coisa muito patriarcal e nada solidária entre mulheres e lésbicas):

“Construir lleva mucho tiempo y esfuerzo. Destruír vos lo hacés en un instante”.
(Construir leva muito tempo e esforço. Destruir leva um instante)

(embora pense que esse insurreccionalismo de fetiche não representa uma verdadeira ação destruidora, se é destruidora de verdade não reproduz o patriarcado. A construção eu também considero um ato de destruição. Há muitas formas de destruir-se esse mundo que estamos por descobrir, e se o ataque não é permanente e cotidiano, o mesmo se reconfigura, se regenera e se reconstrói a todo momento, assimilando até mesmo as nossas próprias linguagens).

Não existe anarquia possível se não se destrói e aniquila e se exclui ao Macho. Minha Anarquia será separatista ou não será.
Vulva la Anarquia!
Saparquia!

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